Teria a vida um tempo determinado por um princípio e um fim? Ou ela é algo absoluto e infinito? Seria o universo biófilo e a vida o motivo que movimenta o cosmo?

Essas são questões sobre as quais se debruçam físicos, religiosos, astrônomos, filósofos e tantos outros estudiososna tentativa de buscar entender a relação entre a vida, a existência e o infinito. Nesta perspectiva, a vida é pulsão, fluxo e não necessariamente uma existência material que, daí sim, é impermanente e finita.

Vida não é sujeito. Vida é transformação contínua. Mutações, combinações e recombinações cuja condição é preservar-se: a vida.

Ao entrar no espaço da instalação “Biofilia” de Maria do Carmo Verdi, um conjunto de corpos disformes, suspensos e tombados, carregam muitas cores, seres, órgãos, fluídos etc. Um ambiente psicodélico, com piso prateado e luzes coloridas, faz lembrar cenários dos “filmes-B” sobre marcianos, batalhas siderais, naves e monstros espaciais, enfim todo um imaginário icônico sobre uma possível vida humana além dos limites da Terra.

Cada um desses corpos escultóricos e pictóricos é produzido por um mesmo procedimento imposto pela artista que evidencia um pensamento compositivo em forma e cor orientado por narrativas internas e combinações químico-físicas imaginárias. Há microambientes ácidos, outros gasosos e gelados e outros metálicos. Esse pensamento orienta ou é orientado por recortes e reforços em reentrâncias no esculpir cada peça e pelas cores que a artista resolve aplicar e relacionar. Apesar de uma grande variedade de estímulos visuais, nada é aleatório no trabalho de Maria do Carmo.

São muitos detalhes: miniaturas de animais, plantas, soldados, astronautas, olhos, pênis, seios, lagos, cascatas, cavernas compõem e orientam possíveis histórias não-lineares. Estas formas feitas com espuma expansiva de poliuretano também têm cabelos, pelos, rabos, dentes, tentáculos. Formas vivas com caráter e personalidade, habitadas por outras vidas.

Por meio de “lunetas” (assim chamados pela artista os “paus-de-selfie” que adaptou com espelhos e pelos na ponta) os visitantes podem explorar a superfícies desses corpos, recortar cenas, aterem-se, no seu tempo, a algumas passagens que lhes pareçam mais notáveis. É evidente e estimulante a fotogenia desta obra.

Os objetos que a artista usa são todos adquiridos em lojas de artigos populares. Brinquedos de plástico, adereços carnavalescos, peças de bijuteria barata, enfim itens produzidos e consumidos hoje em altíssima escala, distribuídos em todo o mundo e que parecem nascidos para serem descartados. Assim, o conjunto de corpos coloridos, povoado por tais produtos, também lembra entulho, detritos, chorume tóxico. Seriam essas as formas do lixo espacial na órbita da Terra?

Mas, apesar da sensação do apocalipse iminente, a vida persiste. “A vida não é algo frágil, mas ao contrário, é resistente, persistente e até o momento, inextinguível” afirma a artista.

A instalação de Maria do Carmo parece falar de tudo, do todo. Há começos e fins, mortes e nascimentos, antes e depois. Às vezes parece que o movimento sugerido nesta obra indica um caminho de desordem entrópica, um desmonte, uma dissolução. Outras vezes, pode indicar que algo está começando a se configurar como nova forma de vida, de convívio, de composição. Na verdade, é tudo isso junto, num fluxo.

Narrativa não linear, múltiplas narrativas, tragédia e humor.
Um todo. A vida.
Sobrevivência. Persistência.

São asteroides, meteoritos, luas e planetinhas que como arcas de Noé pós-modernas parecem carregar vida, em metamorfose e adaptação, que insiste em sobreviver.

Carolina Paz
Abril/2018