A primeira parte desse artigo pode ser lida aqui.

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Entrevista com a socióloga Nathalie Heinich.

“Hoje, não podemos nos livrar da pessoa do artista”

Quais são as manifestações atuais do ego dos artistas?

NH: Podem passar pelo vestuário – que pode ser o mais extravagante possível, ou, ao contrário, adequado ao extremo para mostrar que se demarca desse cliché, com terno e gravata como Jeff Koons. Mas sobretudo, o ego do artista se impõe através do discurso que acompanha a sua obra, e que faz parte dela. Um exemplo? No início da arte contemporânea, a galerista Iris Clert descobriu a pintura de um jovem desconhecido: um monocromo azul. “Isso não é uma quadro!”, se exclama. Mas pouco a pouco, o charme do seu autor, Yves Klein, opera. Ela é conquistada por sua “espécie de folia mística” e decide o ajudar a ficar conhecido. Dá para ver com esse exemplo como a pessoa do artista tornou-se essencial para provocar a adesão em frente a uma obra que, conforme as regras implícitas da arte contemporânea, transgredi os códigos.

O ego das artistas teria aumentado com a arte contemporânea?

NH: Sim, porque na idade clássica, a excelência estava na reprodução dos cânones da representação. Mas no século XIX, com os românticos na literatura e principalmente os impressionistas na pintura, emerge a ideia que a arte não deve mais representar o real, mas permitir expressar a interioridade do artista. Portanto, se impôs a ideia de que a sinceridade dele é garantia da autenticidade da obra. Paralelamente, foi implementado o que eu chamo de “regime de singularidade”, onde o que é único, fora do comum, parece a priori mais interessante que aquilo que é tradicional, convencional. A figura do artista boêmio, excêntrico, se impõe. Mas na arte contemporânea, assistimos a uma hiperprodução de obras transgressivas: o ego dos artistas, que devem ser originais, únicos, só podem se exacerbar.

Ao ponto que a obra desaparece atrás da pessoa?

NH: A obra fica necessária para permitir que discurso se estabeleça! Mas a partir do momento que a arte não reproduz mais os cânones, não podemos nos livrar do artista para entender e interpretar suas obras. Aparece como essencial, no mundo da arte contemporânea, o “encontrar” os criadores. Se nota que conhecer um artista torna ainda mais desejável ter suas obras. Andrea Fraser elevou o jogo a tal nível a ponto de propor a um colecionador de se deixar filmar enquanto ele e a artista faziam amor, um vídeo de artista!

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Entrevista com  o psicanalista Thierry Delcourt.

“O ego resulta de uma interferência entre duas zonas do cérebro.”

De qual maneira a criação está ligada ao ego?

TD: Vamos pegar duas imagens: a de uma criança que, na volta da escola, brinca de professor, sozinho. E a imagem de uma criança que atravessa uma sala correndo, para ser visto por os seus pais e os convidados deles. As duas são uma criação. Mas na primeira, o ego não intervém. A criação é uma necessidade. E o que opera na “art brut”, quando o indivíduo cria para colmatar uma falha do ser. O ego, dimensão essencial de personalidade, é a maneira de constituir uma identidade que encara os outros e permite existir em frente a eles. É o que busca a criança que faz seu teatro: se mostrar e ser reconhecido. É o ego que faz passar o artista na etapa de se mostrar.

Mas o ego pode ser o motor da criação? Por exemplo, quando Gérard Garouste começa a desenhar na escola, onde ele vai mal e passa a “ser visto com interesse por seus pares, seus mestres e seu pai”, como você escreve no seu livro…

TD: Não, não é para Garouste uma questão de ego, mas realmente de existir em uma dimensão bem mais arcaica do ser. Uma criança existe através do olhar do seus pais: é um mínimo vital, uma questão de sobrevivência. Estamos no registro do “eu sou”. O ego aparece na etapa seguinte – aquela do “eu sou alguém”, que pode virar “eu sou alguém do bem”, até “alguém de maravilhoso”. Para Garouste, esse ego, hoje muito forte, se desenvolveu mais tarde, quando foi reconhecido por Leo Castelli.

Como funciona o ego, de um ponto de vista científico ?

TD: Ele resulta de uma interferência entre duas zonas do cérebro: a zona cortical, onde se elaboram os pensamentos e as encenações intelectuais, e uma zona sub-cortical, o tálamo e os nódulos cinzas centrais, onde são vivenciadas as emoções. Gina Pane, na suas performances, se põe em cena elaborando um cenário sobre o plano intelectual, mas ela mobiliza também elementos matriciais, arcaicos, na zona sub-cortical. Em um segundo momento, o fato de ser reconhecido, através do olhar seduzido do outro – o que percebemos na zona cortical – da uma outra dimensão no ego provocando um sentimento de plenitude… É esse todo que estrutura o ego.

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Cérebro de Van Gogh (2011) – obra de Jan Fabre (1958-presente)

Pode causar problemas na criação?

TD: Sim. Se existe uma procura importante de ganhos de ego, é porque antes de tudo queremos seduzir o outro. Os artistas se alimentam primeiramente de sensações indefiníveis, arcaicas – sons, cheiros, impressões … – quer dizer uma espécie de magma, a qual eles dão uma forma de dimensão originaria, matricial do seu ser. Ou, se um criador é fascinado por intercâmbios, se sua procura de ego é forte demais, ele convocará só representações pré-fabricadas, e sua arte será no melhor dos casos só intelectual. É o contrário do que faz a artista Marylène Negro. Quando essa artista, vista como conceitual, se interessou a desconstrução da imagem, ela resolveu renunciar a essa etiqueta tranquilizadora. Mudando de caminho, ela se colocou em perigo. Acho que ela não tem ego… e ela cava cada vez mais a matriz de seu ser.

Um pouco como um eco de Goya quem, segundo Malraux, se torna verdadeiramente genial o dia em que ele “ousa parar de agradar”…

TD: Não sei si Goya tinha um ego importante. Mas tenho certeza que quando realizava retratos da corte, conforme pedido, ele recebia uma imagem recompensadora. E subitamente, com suas gravuras dos Caprices, onde ele denuncia as derivas da sociedade, ele aceita o risco de parar de ser visto. Mas nessa posição solitária, ele passa de um ego social para uma forma de narcisismo onde ele pode se sentir único frente aos outros.

Existiria então dois tipos de ego na criação?

TD: Sim, eles poderiam encarnar-se nas figuras d’Auguste Rodin e de Camille Claudel. Rodin é um homem imponente, monumental, no que ele é como no que ele faz. Ele esta lá, arraigado. É “só” ser um bom artista. Ele tem o ego plácido de um Tartarin de Tarascon. Frente a ele, Camille Claudel. Ela tem um ego enorme – no sentido daquele do Don Quixote. Ela gostaria de ser artista! Quando ela destrói suas estatuas, é porque elas não foram vistas do jeito que ela queria. O seu ego ficou profundamente ferido, e ela não aguentou. O ego tipo Dom Quixote, mais frágil, precisa mais de encenação.

O ego dos artistas conseguiu evoluir no decurso da historia da arte?

TD: Sim, no sentido que, até o final do século XVII, eles respondiam a uma encomenda e respeitavam regras. Hoje, o artista quer provocar, perturbar. Ele esta numa posição de ego onde ele nos significa: “eu vou lhes mostrar como que é”. Por exemplo, nos anos 80, Orlan, se colocando dando luz a ela mesmo ou via suas cirurgias, consegui impor alguma coisa na sua imagem.

A partir do momento que a arte se tornou transgressiva, da para marcar a história da arte, ou seus contemporâneos, sem ter um ego importante?

TD: Com certeza. Eu não acho, por exemplo, que o ego esteja em jogo em Van Gogh. Ele cria por necessidade, porque ele precisa traduzir suas impressões, seus sentimentos. De qualquer modo, no momento no qual se concebem obras, si formos um grande artista, não estamos nesse registro. Para alguns, Picasso tem um ego que se espalha. Mas enquanto ele cria, ele não é nesse ego: ele é na tensão, na busca. É isso que diferencia uma criação em profundidade de uma criação de superfície.

O que pensar, então, desses artistas que querem exibir suas singularidades?

TD: Um artista sente a necessidade de mostrar sua diferença. Se cria na solidão, e depois se deve por em prova frente ao outro: o rei está nú! Se constrói um personagem… é também um jeito de se sentir mais seguro.

É para se sentir mais seguro que alguns preferem criar dentro de um coletivo?

TD: Talvez. Mas me parece que sempre um deles empurra-se para frente, quer falar alguma coisa, se diferenciar do grupo. Eu não acho que um coletivo possa existir por toda uma vida. Existe num dado momento… mas somos humanos! Para crescer, temos de renunciar a algumas coisas e se construir uma identidade. A criatividade de cada um é um desafio crucial para conseguir…

—- Na terceira parte desse artigo, teremos breves depoimentos de artistas renomados sobre a questão do ego em seus trabalhos e também abordaremos a questão da mulher artista e o ego.

Fonte: artigo original do L’œil Magazine (Maio, 2014), traduzido do francês por Myriam Zini – Revisão Carolina Paz