Apavorante a ideia de mergulhar na água e não ter mais um espaço de ar para o qual se possa ascender para recuperar o fôlego. Atreve-se a essa proeza quem domina técnicas específicas e confia nos equipamentos que tem para explorar mundos submersos, misteriosos, profundos e perigosos à vida humana.

Para quê se submeter a esse risco? Para dar luz ao desconhecido, abstrair-se de si e prestar atenção à descoberta, à surpresa, às cores, às texturas rochosas, à escuridão… É preciso confiar no parceiro de mergulho, estabelecer uma comunicação por gestos, desenhos e textos. É tudo sinalização, fio condutor e lanternas. Não se pode dar margem a qualquer relativização, encantamento, dúvida, improviso nas decisões para consigo e para com o outro. A deriva é morte certa.

No mergulho em cavernas, a mais avançada prática entre todas do gênero, é alto o risco de se perder e nunca mais voltar. E é justamente no meio desse sufoco que Susanne Schumacher Schirato encontra o ponto de partida para nos oferecer uma experiência: a instalação A H2O está + quente embaixo.

Um cubo de 3 x 3 metros, branco, de lycra rigidamente esticada, posicionado quase no centro da sala do Coletivo 2e1, separa o “mundo de fora” de um “outro mundo interior”. Entra-se nele pela frente, por um recorte no pano equivalente a uma porta. O ambiente tem iluminação difusa (a cobertura de tecido filtra a luz da sala e há lâmpadas, nos quatro cantos laterais, posicionadas por dentro da estrutura). O chão é de cascalho, corpo desequilibra ao entrar e a pisada vacila.

Há dezessete anos, Susanne mergulha em cavernas, já esteve nas mais importantes no Brasil e no mundo. Para algumas delas, diz que não voltará. “Não vale a pena. O risco é enorme! Tem uma caverna por exemplo, chamada Cow Springs, que eu não consigo voltar mais porque ela exige muito autocontrole e concentração. São sete restrições e ângulos diferentes, o que significa que são grandes negociações com o lugar encostando os cilindros no teto e o peito no chão.”

Para a artista-exploradora interessa a experiência do corpo em flutuação, às vezes expremido por estreitas passagens, às vezes minúsculo, flutuando num imenso salão envolto de espeleotemas (nome dado às formações rochosas de interiores de cavernas). Tudo é profunda escuridão. Pode-se pensar em um útero. Mas enquanto nesse se respira sem ajuda de equipamentos, a água é ar – o humano é anfíbio e o líquido amniótico alimenta de oxigênio as células do feto – na caverna não há uma condição natural para o corpo. Enquanto o útero é o puro primitivo, a caverna é um lugar alheio, misterioso, interditado pela natureza que, por insistência, o ser humano quer descobrir, atravessar e iluminar. Na caverna o risco de vida é consciente.

Já distante da caverna, no campo da arte, sem ameaça iminente de morte, onde a flutuação é simbólica, Susanne oferece fragmentos que coletou em seus mergulhos. Uma coleção de vestígios trazidos de um mundo muito distante e praticamente inacessível, a não ser para poucos e corajosos insistentes. Desenhos e pedrinhas são índices-souvernirs deslocados para esta instalação. Agora, são estas peças os corpos em suspensão.

As páginas de seus cadernos, os quais leva consigo nas explorações, estão combinadas em quarenta e oito pares, pendurados por fios de nylon, lembrando um livro aberto. Nelas, há desenhos quase abstratos, anotações rápidas de texturas, paredes, rochas, ambientes, assim como também palavras-chave, mensagens-código trocadas com seu companheiro enquanto ambos estão submersos. O duplo também aparece nas marcas que o grafite deixa sobre a página oposta ao desenho, à nota. A lembrança do contato está por toda parte nesta instalação.

Pedaços calcários, relíquias íntimas que Susanne traz no bolso, são um duplo fetiche. Aqui o contato é do desejo da mergulhadora com o desejo do espectador. A primeira deseja possuir um pedaço concreto da experiência vivida, o segundo deseja o contato com essa experiência que só pode ser por ele acessada em parte, pela imagem que a artista articula e por sua própria imaginação sobre esse mundo misterioso. Um “quase” contato direto com o referente. E é esse quase que mantêm a sensação de suspensão e de desejo de contato durante toda a experiência que a obra proporciona.

Esse desejo vence o medo do escuro.

Carolina Paz
Março/2018